A
fragilidade do corpo, única testemunha da chuva negra, nossa morte. No dia que
entrarmos no outono, também teremos secas folhas amarelas a bailar no vento que
nos tira a importância. A vida só se manifesta nos habitats úmidos. Deixe que o
sol se espalhe nas rendas das árvores ou nas rendas dos seus vestidos cheios de
dobras de sombras e de sonhos não permissíveis. Na delicadeza dos seus gestos,
nos encantamos com a simplicidade e nos deitamos na relva encharcados de vinho e
melancolia.
Poesia para quem precisa de poesia
sexta-feira, 20 de setembro de 2013
domingo, 28 de abril de 2013
Deixei cair
o poema não-original na poça intitulada suja; o poema se quebrou todo, visto
que era sonoro mas sem arranjo; os catadores de papel, vidro e plástico
aproveitaram-no na primeira colação dos últimos sete dias sem medição do tempo;
ao mastigá-lo, o condutor do bonde praiano tornou infectada uma das palavras
zig-zagueadas; não era pra menos: todos os passageiros teriam vindo de longe a
conhecer o poema sem identidade; náusea, febre e suor refrigerado catalogados na
epidemia dos descostumes literários; os hospitais dos bares apinhados sem hora
marcada nos próximos trinta exemplares de jornal usados para segunda função;
tristeza e buzinas conviviam em plena ditadura do sol; rezavam e revezavam-se
sem fé pra que a chuva caísse antes da próxima vírgula de esquina; faltava
batata no mercadinho mas a chuva caíra; refrescava pouco mas era placebo dos
bons;
A palavra está
livre
A palavra
está no não-livro
A palavra
está no não-Louvre
A palavra
está nos lèvres das francesas
A palavra
está nos lábios dos larápios
A palavra
está na larva das moscas sem sopa
A palavra
das lavas vulcânicas das moças
A palavra se
diz contra diz se contradiz se contraria
A palavra se
muda a favor se muda a favor das mudas
Das árvores
das palavras do mundo não podo não posso
Não poder
desejo os nãos, as naus, as náuseas do phoder
Asnos, azes,
aos nós, aos laços, aos latrocínios
Da literatura,
da letra turra, da leiteira turva
Ao pé da
letra, pedala-se nas pétalas sem talo
O livre está
pala
O livro está
na vala
Os lèvres
são lábios
A palavra se
favoria nos contrachoros sem gatos uivantes
Das vores
sem ar, desejo os sins, as teses, os sussurros sem sus
A palivre
estalavra no incêndio melancólico dos umbigos
Dos Lars,
dos lares abandonados na tua infâmia Cia
Moeda de
trocadilho infanto, infausto, infartado
O coração
bate surdamente à procura da ignorância pura
Escreva pro
jornal e denuncie seu mau-humor estrábico
Torne e
entorne o seu medo dos iguais, das iguanas
Esgote na
pia tua bílis, teu olhar cinzento, teu reflexo
Onde a
palavra transborda no corpo translúcido
A ciência
debocha de si, do tempo, do método, dos sãos, dos seus.
domingo, 10 de fevereiro de 2013
Quando a poesia é uma forma de anti-mordaça dos punhais
pungentes ao encontrar com os vizinhos no elevador. Quando a poesia é uma fôrma
das vanguardas veladas para os enterros inglórios do dia vazio seguinte. Quando
a poesia é substância-verdade dos ritos e farsas sociais. Quando a poesia não é
palavra, nem idéia, nem libertação. Quando a poesia é rendada, puída e frágil
nas vestes da mulher seminua na beleza emprestada pelo sonho de um qualquer.
Quando a poesia é extensão da angústia plasmática que corre nas veias e
artérias do sujeito objeto. Quando a poesia é suor nos poros da
pele-tecido-nuvem cobrindo o mal-estar dos sentimentos díspares. Quando a
poesia incendeia o descaso, a dor e a overdose de hipocrisia injetada no poder
público ou privado. Quando a poesia é a serigrafia da angústia prima, azia dos
logradouros estúpidos da lipoânima.
sexta-feira, 23 de dezembro de 2011
Saudação à Laranja Mecânica
Como Pessoa eu nuca tive heterônimos
Como bicho eu nunca tive heterônimos
Como Lygia eu nunca tive bichos
Como Lygia, ela está nua depois de tê-la comido
Comum à Pessoa o bicho de Lygia
Clark, clock, clark, clock
Clockwork orange ?
Stanley, Stanley, Stanley
Kubrick, Kubrick, Kubrick.
quarta-feira, 21 de dezembro de 2011
Absurdo
se a beleza é absurda,
o que fazer de mim tão absurdamente distante dela,
tão cômico e estático quando o coração e a terra param
e só os olhos se movem para um lugar de dentro
tão fora de si que eu já nem sei quem não sou ?
o que fazer de mim tão absurdamente distante dela,
tão cômico e estático quando o coração e a terra param
e só os olhos se movem para um lugar de dentro
tão fora de si que eu já nem sei quem não sou ?
Assinar:
Postagens (Atom)